Atualizado: 28/08/2023.
Eu cresci ouvindo as histórias dos meus antepassados, meus avós, tanto paternos quanto maternos sempre fizeram questão de falar sobre nossos antepassados e eu sempre fui muito atencioso com essas histórias, pois me despertavam curiosidade e me instigava a imaginação em ficar pensando como era a vida e os costumes da época. Como Professor de Direito e História sempre dei valor às histórias que estudei e que me contam. Afinal, todos nós somos resultado de uma história bem escrita por nossos antepassados. Há alguns meses despertou-me no coração a vontade de escrever um livro sobre a história de minha família. Foi então que iniciei as buscas documentais nos cartórios da nossa região, Cruzeiro da Fortaleza, Brejo Bonito, Serra do Salitre, Santana de Patos, São João da Serra Negra, Pilar, Patos de Minas, na premissa de encontrar registros públicos que pudessem me nortear o caminho. Consegui encontrar alguns registros de nascimento e casamento, mas a grande dificuldade foi encontrar registros de óbitos, principalmente daqueles falecidos antes de 1940.

Antigamente, os corpos eram sepultados nas fazendas e não se tinha o costume de ir até a cidade para lavrar o registro de óbito. Quando muito, o óbito era registrado no livro da fazenda e esses livros são privados, pertencem aos herdeiros dos fazendeiros, dificultando ainda mais a pesquisa. Fiquei muito feliz quando descobri que minhas raízes mais profundas estão na cidade de Cruzeiro da Fortaleza MG, de onde já colhi carinhosas e inesquecíveis lembranças da Festa do Rosário. A minha primeira parada em Cruzeiro da Fortaleza foi no Cemitério Municipal, pois minha avó tem lembranças de quando contavam para ela que o bisavô dela estava ali sepultado. Nós encontramos o túmulo do meu tataravô, que creio ser um dos mais antigos da cidade, todo feito de pedra tapiocanga e barro. Já está em um estado comprometedor, mas já estou viabilizando a sua restauração para que possa ser mantido para as nossas futuras gerações e lógico, mantê-lo como relíquia da cidade de Cruzeiro da Fortaleza. Ao voltar da cidade, fiquei pensando quem seria a pessoa mais longeva da cidade, e que eu precisava encontrá-la para saber mais histórias dos meus antepassados. Foi então que entrei em contato com nosso amigo, Pedro Mesquita e ele me direcionou até o Geraldo Graia, filho da Dona Eva, a senhora que seria a mais idosa da cidade.

Então entrei em contato com o filho dela e descobrimos que nossas famílias são amigas há muitos e muitos anos, e que nossos antepassados foram todos “criados” juntos na cidade de Cruzeiro da Fortaleza. Fomos até a casa do Graia, como é conhecido, onde tivemos a grata oportunidade de conhecer sua esposa, Dona Zezé, sua filha mais velha e seu genro. Pessoas abençoadas que nos acolheram de braços abertos. Hoje, eu e vovó fomos visitar a Dona Eva. De pronto, já fiquei encantado quando cheguei na casa dela e ela nos recebeu com um sorrisão e nos disse que tinha acabado de receber a comunhão. Ver, ouvir e abraçar a Dona Eva foi o mesmo que abraçar meu povo antigo. Ouvir suas histórias que envolvem meu tataravô e minha tataravó, os filhos que tiveram, a profissão deles, o jeito de falar, a personalidade, foi emocionante.
Descobri através dos contos da Dona Eva que meu tataravô, Antônio Serrano era baixinho, forte e muito nervoso, tinha como profissão a de ferreiro, fabricava manualmente enxada, machado, foice, roda de fiar e rodas de carros de boi. Minha tataravó, Dona Maria Venância era do lar, mulher alta e de personalidade forte, saía pouco de casa, não gostava de visitas e vivia inteiramente para os filhos e o marido. Estou muito feliz por ter tido a oportunidade de encontrar a Dona Eva e aprender com ela os grandes valores da vida. Quando perguntei a sua idade ela de pronto respondeu: “104 tá mandando.” Lucidez, paciência, alegria, fé e compreensão fazem da Dona Eva uma senhorinha especial, com quem se tem vontade de ficar conversando por dias e dias. Agradeço a Deus a oportunidade que me deu de conhecer a Dona Eva e através dela, conhecer, mesmo que de forma indireta, os meus antepassados. Aqueles que, em sua simplicidade e sabedoria singular proporcionaram minha vinda ao mundo. Agradeço ao Geraldo e a Zezé, que nos receberam com tanto amor e carinho, com quem agora temos profunda amizade. E em especial, agradeço à Dona Eva, pela alegria, paciência e maternidade infinita com que nos recebeu em sua casa. Já combinamos o retorno, que será de muita prosa e frango caipira. Um dia para se lembrar para sempre!” Caio Magalhães.
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